Especialistas do setor imobiliário preveem elevação de até 5% no valor de casas e apartamentos entre o fim de setembro e o início de outubro

As despesas com alimentos, em especial o arroz, têm tirado o sono do brasileiro. Mas, nos últimos dias, o valor dos materiais de construção civil também vem assustando. O efeito da alta do cimento, aço, tijolo, telhas e tubos de PVC pode refletir no custo de apartamentos e casas. Especialistas do setor imobiliário preveem elevação de até 5% no preço desses imóveis entre o final de setembro e o início do mês de outubro.

A justificativa para encarecer os produtos é a escassez deles no mercado devido à queda de produção nas indústrias e ao aumento da procura. Por isso, não é possível, ainda, estimar se o reajuste vai perdurar até 2021. Mas o repasse imediato é inevitável, segundo empresários do setor e consultores na área.

Com a pandemia do novo coronavírus, esperava-se uma retração do segmento, mas ocorreu o oposto. “Várias indústrias se desmobilizaram pensando que o setor passaria por uma recessão, e o que aconteceu foi o contrário. Aumenta a demanda, reduz a oferta, os preços sobem”, explicou o presidente da Associação de Empresas do Mercado Imobiliário do Distrito Federal (Ademi), Eduardo Aroeira Almeida.

Segundo ele, o preço dos imóveis aumentará devido ao planejamento das construtoras. “Um empreendimento planeja uma margem de rentabilidade mínima. Quando os custos sobem, essa rentabilidade vai ter de aumentar na mesma proporção para que o empreendimento permaneça viável. Com certeza, haverá um impacto”, completou.

Considerando a inflação oficial do país, de acordo com dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados pelo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os acumulados de alta em 12 meses foram 4,52% nos materiais de construção e 2,89% na mão de obra. Quando se trata de insumos importantes para as obras, o cimento teve incremento de 10,7%; o tijolo, de 16,8%; a areia, de 4,8%; e a telha, de 2,9%.

Confira os números do IBGE sobre os preços dos principais insumos da construção: 

Tijolo: 16,86%
Cimento: 10,67%
Tinta: 5,77%
Areia: 4,77%
Ferragens: 3,07%
Telha: 2,86%
Material hidráulico: 2,56%
Material de eletricidade: 0,96%
Revestimento de piso e parede: 0,71%
Mão de obra: -0,03%
Pedras: -2,79%
Madeira e taco: -4,04%
Vidro: -6,5%

Preços para construtoras

Em levantamento de construtoras que atuam na área imobiliária e precisam adquirir produtos todos os dias, o concreto aumentou 9,75% entre maio e agosto. No mesmo período, o aço cortado e dobrado subiu 10%; o cimento, 21,01%. Já o quilo do alumínio teve salto de 33,93%; e os fios de cobre, 48,48%.

O diretor da Ademi Rodrigo Nogueira considera inevitável o acréscimo no preço dos imóveis. “Os insumos estão aumentando e a mão de obra também. Mesmo as obras públicas, como o túnel de Taguatinga, estão sentindo o impacto. É a lei da oferta e da procura. O consumidor que deseja comprar um imóvel vai ter de agilizar a decisão ou pagará mais caro”, alertou Nogueira.

O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-DF), Dionyzio Klavdianos, avalia que o cenário posto hoje era inimaginável há alguns meses. “Temos um aumento generalizado que não víamos há anos. Tudo subiu: cimento, PVC, alumínio, aço. Tem insumos, como a cerâmica, que quase dobraram de valor. Os aumentos estão vindo na casa das dezenas”, observou.

Segundo Klavdianos, o setor não pode aceitar tais aumentos. “Vai haver um movimento forte, nacional, para que alguma medida seja tomada”, adiantou.

No fim de agosto, o Instituto de Defesa do Consumidor (Procon-DF) recebeu diversas denúncias sobre valores abusivos em lojas de materiais de construção na capital federal. Na época, notificou 17 estabelecimentos do ramo em todo o Distrito Federal. O prazo para que os aumentos praticados sejam explicados termina nesta sexta-feira (11/9). Depois de a operação ter sido divulgada, o órgão recebeu outras três queixas contra altas injustificadas de preços.

Segundo o Procon-DF, a maioria das reclamações versa sobre o valor do milheiro de tijolo. Na ação, fiscais solicitaram, além de notas fiscais de compra e venda, os registros de saco de cimento, ferro e brita.

“Os empresários alegam se tratar apenas de repasse dos custos, que subiram com a falta dos itens. Mas, agora, vamos analisar as justificativas e toda a documentação para verificar se não se trata de um aumento injustificado durante a crise do coronavírus”, afirmou o diretor-geral do Procon-DF, Marcelo Nascimento.

Pesquisa entre as empresas

Um levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) identificou que, de março a julho, em meio à pandemia do novo coronavírus, construtoras de todo o país tiveram elevação no preço de materiais de construção. Dos itens consultados, o cimento foi o que teve mais incremento: 95% das empresas identificaram alteração nos valores cobrados.

Os números se baseiam em um levamento no qual a CBIC ouviu 462 empresas em 25 estados das cinco regiões do país entre os dias 16 e 21 de julho.

No estudo, 95% das empresas disseram que o cimento teve aumento durante o período da pandemia. Para 59% delas, o reajuste foi de até 10%. Para 36%, acima de 10%. Nos estados do Ceará, Pará e de Mato Grosso 100% das empresas responderam que tiveram alta no referido material.

Quando a pergunta foi sobre o preço do aço, 87% das empresas responderam que tiveram acréscimo durante o período da pandemia.

Fonte e imagem: Metrópoles