Especialistas avaliam que o movimento pode ter impacto positivo na economia local

Entre maio e agosto de 2020, mesmo em meio a pandemia de covid-19, 22.136 novas empresas foram abertas no Distrito Federal, cerca de 11,30% a mais que o registrado nos primeiros quatro meses do ano. Os dados são do Mapa das Empresas, divulgado pelo Ministério da Economia. Segundo especialistas, esse movimento é consequência da grande demanda que a população da capital federal gera para, principalmente, o setor de bens e serviços. Para os novos empreendedores, a crise sanitária assustou, mas não suficiente para desanimá-los.

Maria Aparecida Mesquita, 29, percebeu que a demanda para certos tipos de serviços não parou durante a crise sanitária. Por isso, ela não abandonou o sonho de ser dona do próprio empreendimento. Em 7 de julho, ela inaugurou uma franquia de um centro de estética em um shopping no centro da capital. “Sempre temos medo de começar algo novo e a pandemia com certeza intensificou isso. Porém, eu sabia que a demanda era grande e por isso não desanimei”, afirma. Hoje, quase três meses após a abertura, Maria considera que o retorno é positivo.

A única dificuldade de Maria foi em relação à divulgação. “Para começar a atrair os primeiros clientes foi complicado. No entanto, depois das primeiras semanas, o marketing boca a boca começou a movimentar mais o negócio”, declara. Até a burocracia, que assustava a empresária iniciante, a surpreendeu positivamente. “O registro foi muito rápido, até a equipe jurídica e financeira ficou surpresa. Acredito que isso seja reflexo da pandemia, pois tudo foi transferido para plataformas on-line e o atendimento ficou mais ágil”, considera.

Outro que encontrou oportunidade em meio à crise, foi Maurício Santos, 29. Morador do Lago Oeste, ele percebeu que os serviços de entrega de comida não costumam entregar no local. Por isso, em julho, ele criou um delivery de cachorro-quente voltado para a região. “Como eu fiz um curso de gastronomia no Senac e trabalhei em restaurante, antes dele fechar devido a pandemia, tinha experiência no ramo”, conta. Dois meses depois do início do investimento, o jovem afirma que os resultados são positivos. “Considera que o produto está fazendo bastante sucesso”, declara. Ele ainda diz que a burocracia foi a parte mais rápida de todo o processo. “Consegui registrar o nome do negócio em menos de um dia. Fiz tudo pela internet e foi bem ágil”, explica.

Ainda de acordo com o Mapa das Empresas, a capital federal é a segunda unidade da Federação mais rápida para se registrar um negócio. Em média, o processo demora apenas 11 horas e fica atrás apenas do Goiás, onde o tempo é de 10 horas. De acordo com o diretor-superintendente do Sebrae DF, Valdir Oliveira, a posição da cidade no ranking é extremamente positiva. “Certamente isso está ajudando os novos empresários a abrirem e registrarem as empresas no DF. Antigamente, o processo era muito burocrático e isso pode ter desmotivado muita gente”, explica.

Apesar de analisar positivamente os dados, o superintendente considera importante ressaltar que o grande número de empresas abertas é um movimento natural da crise. “Os empreendedores ou microempreendedores surgem como uma maneira de as pessoas buscarem por estabilidade”, afirma. Por isso, é preciso ter cuidado antes de se animar com o cenário. “Muitas empresas estão fechando e outras abrindo no lugar. Antes de iniciar um investimento, é preciso analisar a situação econômica e a demanda do DF e, assim, se planejar”, completa.

Expectativas

Coordenador do curso de economia do Iesb, Riezo Almeida considera que essa movimentação no mercado é positiva para o cenário econômico do DF. “O dinheiro começa a girar mais, pois, a partir do momento que a empresa está aberta, ela precisa dos produtos, que gera mais renda e demanda para os fabricantes e assim por diante na linha de produção”, esclarece. Ele ainda diz que as novas empresas começam a pagar impostos, o que beneficia a arrecadação do governo local. “Os empresários pagam mais tributos como o ICMS. É a circulação de dinheiro que faz falta, ainda mais durante a pandemia”, completa.

Em relação às expectativas para o terceiro quadrimestre do ano, Riezo acredita que a situação deve se manter. “A tendência é que o 3º quadrimestre seja bem positivo ainda mais com as reaberturas de vários setores da economia. Assim, as demandas começam a ressurgir”, afirma. Apesar do bom quadro geral, ele ressalta que é importante que cada empresário analise e planeje os próximos passos do negócio. “Ainda assim, há, infelizmente, empresas que fecharão. É importante estar atento às demandas para, assim, se adequar ao novo normal do mercado”, conclui.

Empresas abertas por mês no DF

Janeiro 5.250
Fevereiro 4.737
Março 5.205
Abril 3.503
Maio 4.177
Junho 4.990
Julho 6.207
Agosto 5.936

Fique de olho

O que avaliar no cenário econômico antes de investir em um negócio

Taxa de juros
• Para iniciar um investimento, é mais vantajoso se as taxas estiverem baixas (como o caso da Selic que está há 2%, taxa mais baixa da série histórica), pois os investimentos imediatos acabam valendo mais do que deixar o dinheiro em poupança. Além disso, o empréstimo também fica mais “barato”.

Inflação
• É importante que a inflação esteja controlada, pois facilita o planejamento de gastos com produtos ou matérias primas. E para garantir um bom retorno dos negócios, em geral, o planejamento é uma parte essencial.

Burocracia
• Ter facilidade e rapidez na hora de iniciar um negócio anima o novo empreendedor. Com a pandemia, esse processo se tornou mais rápido, pois foi transferido para plataformas online.

Efeitos do desemprego

Outro fator que pode explicar o grande número de novos negócios no DF é o desemprego. De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego, divulgada pela Companhia de Planejamento (Codeplan), no início da pandemia, em maio, 333 mil moradores da capital federal estava à procura de um emprego. O número era 0,9% maior que o mesmo período de 2019. Já em agosto, a taxa se estabilizou e 243 mil brasilienses estavam desempregados.

Para Roberto Ellery, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), essa troca é um movimento comum durante crises. “Primeiro, as pessoas ficam desempregadas. Com a necessidade de ter alguma renda, umas partem para a informalidade e outras investem em microempresas”, explica.

Tendência

Mas o professor considera importante ressaltar que, além da crise, há uma tendência de aumento de microempresários e de autônomos no DF. “Logicamente, o desequilíbrio econômico intensifica esse fenômeno, mas, há alguns anos, que o mercado registra um aumento de Microempreendedores Individuais (MEIs) e autônomos”, diz Roberto. Ele afirma que é uma saída natural para quem deseja completar a renda. “Acredito que esse movimento se manterá nos próximos anos”, considera.

Roberto Ellery, no entanto, faz um alerta. “Apesar do processo para abertura de uma empresa estar mais ágil, é preciso ter cuidado”, diz. Ele explica que os aspirantes a novos empresários devem se planejar bem e não agir no calor do momento. “Pode parecer que está fácil, mas não é bem assim. A crise sanitária ainda existe e afeta a economia local. Por isso, recomendo que as pessoas pensem bem antes de investirem dinheiro em um negócio e tenham uma reserva”, conclui.

 

Fonte e Imagem: Correio Braziliense