Projeções indicam que déficit de profissionais pode chegar a 500 mil até 2030, enquanto queda na procura pelos cursos de Engenharia e avanço dos investimentos aumentam preocupação do setor
A falta de profissionais qualificados começa a representar um desafio estratégico para a construção civil e a infraestrutura brasileira. Estimativas apresentadas por entidades do setor apontam que o déficit atual de engenheiros está na casa de 75 mil profissionais e poderá alcançar aproximadamente 500 mil até 2030 caso o ritmo de formação e entrada de novos trabalhadores no mercado não acompanhe a demanda.
O cenário ganha importância em um momento no qual o Brasil possui uma ampla carteira de projetos previstos para os próximos anos. Durante o Encontro Internacional da Indústria da Construção (ENIC 2026), a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) destacou a existência de cerca de R$ 2 trilhões em investimentos anunciados em infraestrutura até 2035. A expansão de obras de transportes, saneamento, energia, empreendimentos imobiliários e projetos industriais tende a elevar ainda mais a procura por profissionais especializados.
Formação de novos profissionais preocupa
Um dos fatores que ajudam a explicar essa situação é a redução do número de estudantes nos cursos de Engenharia. Dados reunidos pelo setor mostram que as matrÃculas passaram de aproximadamente 1,2 milhão em 2015 para 887 mil em 2024, uma retração próxima de 26%.
A diminuição ocorre justamente quando o mercado passa a exigir profissionais com conhecimentos cada vez mais especÃficos. Além da formação tradicional, as empresas procuram engenheiros preparados para trabalhar com novas tecnologias, processos industrializados, ferramentas digitais, gestão de projetos e métodos construtivos mais eficientes.
O problema, portanto, não está relacionado apenas à quantidade de profissionais disponÃveis, mas também à necessidade de alinhar a formação acadêmica à s transformações observadas nos canteiros e nos projetos de infraestrutura.
Dificuldade de contratação vai além da Engenharia
A escassez de trabalhadores não se restringe aos profissionais de nÃvel superior. A construção civil enfrenta dificuldades para preencher diferentes funções técnicas e operacionais.
A CBIC informa que cerca de 90% das empresas enfrentam obstáculos para contratar profissionais qualificados e reter trabalhadores. A dificuldade alcança desde funções nos canteiros até cargos especializados e de gestão.
Dados da Sondagem Indústria da Construção também mostram a dimensão do problema. No segundo trimestre de 2026, 28,6% dos empresários consultados apontaram a falta ou o alto custo de trabalhadores qualificados entre os principais entraves enfrentados pelas empresas. Outros 28,9% destacaram o mesmo problema em relação à mão de obra não qualificada.
Esse quadro pode provocar impactos sobre custos, produtividade e prazos de execução. Em projetos de maior complexidade, a ausência de equipes preparadas também pode limitar a capacidade das empresas de assumir novas obras simultaneamente.
Tecnologia aumenta necessidade de qualificação
Ao mesmo tempo em que pode ajudar a reduzir a dependência de atividades manuais, a modernização da construção cria novas exigências profissionais. BIM, automação, inteligência artificial, construção industrializada e sistemas digitais de planejamento e acompanhamento de obras estão ganhando espaço no setor.
Uma pesquisa sobre o mercado da construção divulgada em 2026 apontou a oferta de mão de obra qualificada como um dos principais desafios das empresas. Entre as prioridades de investimento aparecem justamente treinamento e requalificação dos trabalhadores.
Nesse contexto, aproximar empresas, universidades, escolas técnicas e instituições de formação profissional torna-se fundamental. A ampliação de programas de capacitação, atualização curricular e incentivo à permanência dos estudantes nas graduações de Engenharia está entre os caminhos discutidos por representantes do setor.
Desafio para os próximos anos
A construção civil tem papel decisivo na execução de projetos necessários ao desenvolvimento econômico do PaÃs. Rodovias, ferrovias, habitação, saneamento, energia, obras urbanas e novos empreendimentos dependem diretamente da disponibilidade de profissionais capacitados.
Por isso, enfrentar a escassez de mão de obra deixou de ser apenas uma preocupação das empresas e passou a representar uma questão ligada à própria capacidade brasileira de transformar investimentos previstos em projetos efetivamente executados.
Com uma demanda crescente por obras e um mercado cada vez mais tecnológico, formar, atrair e manter novos profissionais será um dos grandes desafios da Engenharia e da construção civil brasileira até o fim desta década.
