Levantamento da CBIC aponta que a adoção da jornada de 40 horas semanais poderá gerar custos adicionais de R$ 13,5 bilhões por ano e ampliar os desafios relacionados à escassez de profissionais no setor.
A possível redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas está mobilizando a indústria da construção civil brasileira. Embora a proposta de mudança na escala de trabalho represente uma oportunidade de ampliar o tempo de descanso e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, entidades empresariais alertam para os desafios econômicos e operacionais que poderão acompanhar sua implementação.
Segundo estudo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o setor precisaria incorporar aproximadamente 288 mil novos profissionais para preservar o atual ritmo de produção diante da diminuição das horas trabalhadas. A contratação desse contingente representaria um custo adicional estimado em R$ 13,5 bilhões anuais, incluindo encargos trabalhistas e previdenciários.
Falta de profissionais pode dificultar adaptação
Um dos principais obstáculos identificados pela entidade é a dificuldade de encontrar trabalhadores disponíveis para atender à demanda adicional.
A construção civil já convive com limitações na oferta de mão de obra, especialmente em atividades que exigem experiência e qualificação técnica. Nesse cenário, a necessidade de ampliar rapidamente o quadro de funcionários poderia intensificar a disputa por profissionais e pressionar os custos das empresas.
O levantamento da CBIC detalha a distribuição estimada das novas contratações:
111 mil trabalhadores para a construção de edifícios;
98 mil profissionais para serviços especializados;
79 mil trabalhadores para obras de infraestrutura.
A dificuldade de preenchimento dessas vagas poderá comprometer o planejamento de empreendimentos, prolongar cronogramas e exigir mudanças na organização dos canteiros de obras.
Custos podem afetar obras e investimentos
Além da necessidade de contratação, o estudo considera outros caminhos para compensar a redução da jornada, como a reorganização das atividades e a utilização de horas extras.
Na hipótese de compensação por horas extraordinárias, o impacto financeiro poderia alcançar R$ 20,3 bilhões anuais, considerando os encargos básicos. A estimativa representa uma elevação de até 15% nas despesas com mão de obra do setor.
Esses efeitos preocupam especialmente as pequenas construtoras e as empresas que executam obras com margens financeiras mais restritas. Eventuais aumentos de despesas podem exigir revisões de planejamento, adequações orçamentárias e renegociações contratuais.
Nos contratos de obras públicas, também surge a preocupação com possíveis desequilíbrios econômico-financeiros, sobretudo nos empreendimentos planejados considerando a jornada atualmente praticada.
A habitação popular é outro segmento sensível às alterações de custos, devido à participação significativa da mão de obra no orçamento dos empreendimentos.
Produtividade e qualificação entram no centro do debate
Para além dos impactos financeiros, a discussão evidencia a importância de investimentos em produtividade, capacitação profissional e modernização dos processos construtivos.
A adoção de tecnologias, a industrialização de etapas das obras e o aperfeiçoamento da gestão podem contribuir para reduzir desperdícios e melhorar o aproveitamento das equipes.
Entretanto, essas transformações exigem planejamento, investimentos e tempo para adaptação, especialmente entre empresas de menor porte.
A CBIC defende que eventuais mudanças sejam acompanhadas de uma análise técnica das particularidades do setor, considerando tanto os direitos dos trabalhadores quanto a manutenção dos empregos e da capacidade produtiva.
Equilíbrio entre qualidade de vida e sustentabilidade do setor
A discussão sobre o fim da escala 6x1 envolve diferentes interesses. De um lado, a redução da jornada busca proporcionar melhores condições de descanso e maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional. De outro, o setor produtivo aponta a necessidade de preservar a competitividade das empresas e a continuidade dos investimentos.
Para a construção civil, o desafio será encontrar mecanismos capazes de conciliar esses objetivos sem comprometer a execução de obras, a geração de empregos e a oferta de moradias e infraestrutura.
Enquanto a proposta segue em discussão no Congresso Nacional, o debate reforça a necessidade de uma transição planejada, fundamentada em dados e construída por meio do diálogo entre trabalhadores, empresas e poder público.
Fontes e referências: estudo técnico da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), divulgado em 20 de março de 2026; atualizações da CBIC de setembro e outubro de 2026; reportagem de Wanderley Preite Sobrinho, publicada pelo UOL em 15 de outubro de 2026. Texto desenvolvido com redação e estrutura originais, a partir das informações das fontes citadas.
