Levantamento da CNI e da CBIC revela perda de ritmo na atividade do setor, em meio às dificuldades de acesso ao crédito, à pressão sobre os custos e à escassez de trabalhadores.
A construção civil brasileira encerrou o terceiro trimestre de 2026 enfrentando um cenário de desaceleração. Mesmo com sua relevância para a geração de empregos e o desenvolvimento econômico, o setor continua sentindo os efeitos das taxas de juros elevadas, que restringem investimentos, encarecem financiamentos e dificultam o planejamento de novos empreendimentos.
Dados da Sondagem Indústria da Construção, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com apoio da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), mostram que o indicador de atividade ficou em 45,9 pontos no terceiro trimestre, abaixo dos 47,8 pontos registrados no período anterior.
O resultado permanece abaixo da linha de 50 pontos, referência utilizada pela pesquisa para identificar a evolução da atividade, indicando um ambiente de retração na percepção dos empresários.
Crédito caro limita investimentos e novos projetos
O custo do dinheiro permanece entre os principais obstáculos ao crescimento da construção civil. Apesar das reduções recentes da taxa básica de juros, a Selic ainda se encontra em 13,75% ao ano, patamar que mantém o financiamento como um desafio para empresas e consumidores.
A preocupação aparece de forma expressiva na pesquisa: 40% dos empresários apontaram os juros elevados como um dos principais problemas do setor. O percentual é o segundo maior da série histórica iniciada em 2015.
Na prática, o crédito mais caro pode comprometer a viabilidade de novos empreendimentos, reduzir a capacidade de modernização das construtoras e adiar investimentos em equipamentos, tecnologias e expansão das atividades.
A dificuldade de financiamento também aparece nos indicadores empresariais. O índice de facilidade de acesso ao crédito caiu de 39,3 para 37,9 pontos entre o segundo e o terceiro trimestres, evidenciando um ambiente financeiro mais restritivo.
Aumento dos custos pressiona o orçamento das obras
Além dos juros, a construção civil enfrenta a elevação contínua de despesas operacionais. A combinação entre materiais mais caros, custos trabalhistas e limitações na oferta de profissionais qualificados exige maior atenção das empresas na elaboração de orçamentos e na execução dos contratos.
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), acumulou alta de 6,64% nos 12 meses encerrados em setembro de 2026.
Nesse intervalo, o custo da mão de obra avançou 7,78%, enquanto materiais e equipamentos registraram aumento de 6,06%.
Outro indicador relevante, o Custo Unitário Básico (CUB) médio nacional, apresentou crescimento de 6,84% no acumulado de 12 meses até agosto.
Essas variações representam desafios especialmente para empresas que trabalham com contratos de longa duração e precisam conciliar previsibilidade financeira, produtividade e cumprimento de prazos.
Falta de trabalhadores amplia desafios do setor
A disponibilidade de mão de obra também permanece entre as preocupações das construtoras. A dificuldade de encontrar profissionais, qualificados ou não, somada ao aumento dos custos de contratação, influencia diretamente o planejamento e a produtividade dos canteiros.
A pesquisa da CNI aponta que a falta ou o alto custo da mão de obra não qualificada foi mencionada por 29% dos empresários no terceiro trimestre, ocupando a terceira posição entre os principais problemas enfrentados pelo setor.
O cenário evidencia a importância da qualificação profissional, da modernização dos processos construtivos e da adoção de tecnologias capazes de aumentar a eficiência das operações.
Setor mantém relevância econômica apesar da desaceleração
Embora os indicadores de atividade sinalizem dificuldades, a construção civil continua desempenhando papel importante na geração de oportunidades de trabalho.
De acordo com levantamento da CBIC, o setor criou 200.431 empregos formais entre janeiro e agosto de 2026, com destaque para as obras de infraestrutura, responsáveis por 79.065 novas vagas no período.
Os números demonstram que a desaceleração da atividade convive com a manutenção de uma importante capacidade de geração de empregos, especialmente em segmentos associados aos investimentos em infraestrutura.
Para os próximos meses, o comportamento das taxas de juros, a evolução dos custos de produção e as condições de financiamento serão determinantes para as decisões de investimento.
Nesse contexto, a continuidade dos projetos de infraestrutura, a segurança dos contratos e a existência de condições econômicas favoráveis à atividade produtiva ganham ainda mais importância para sustentar o desenvolvimento da construção civil brasileira.
