Levantamento da CBIC projeta três cenários para o setor e alerta para riscos ao déficit habitacional e à habitação popular
Brasília, 23 de março de 2026
A proposta de reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais — associada ao fim da escala 6×1 — pode gerar uma pressão adicional de até R$ 20,3 bilhões por ano nos custos da construção civil brasileira. Os números são de um estudo inédito divulgado nesta sexta-feira pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), elaborado com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024.
A pesquisa, desenvolvida pela economista-chefe da entidade, Ieda Vasconcelos, aponta que a mudança tornaria a hora trabalhada 10% mais cara, elevando a remuneração média de R$ 15,01 para R$ 16,51. CBIC O efeito mais severo seria sentido pelas micro e pequenas empresas, que representam a esmagadora maioria do setor.
Três caminhos, todos custosos
Para compensar a perda de aproximadamente 600 mil horas de trabalho anuais decorrente da redução da jornada, o estudo mapeia três possíveis cenários. Acessa
O primeiro é simplesmente desacelerar. Sem reposição das horas perdidas, o ritmo das obras cairia, projetos em andamento seriam atrasados e a oferta de imóveis, reduzida — agravando um déficit habitacional que já preocupa o país.
A segunda saída seria contratar novos trabalhadores. Para manter o volume atual de produção, o setor precisaria admitir 288 mil profissionais, sendo 111 mil na construção de edifícios, 98 mil em serviços especializados e 79 mil em obras de infraestrutura, com custo adicional estimado em R$ 13,5 bilhões anuais. Conexão Política
Já o terceiro caminho passa pelas horas extras. Com o adicional legal de 50%, o custo extra chegaria a R$ 14,8 bilhões por ano, ou R$ 20,3 bilhões quando incluídos os encargos trabalhistas básicos, elevando o total da folha do setor para R$ 155,6 bilhões — acréscimo de 15% sobre o patamar atual. CNN Brasil
Habitação popular na linha de fogo
O impacto não seria uniforme. A CBIC aponta que os efeitos tendem a ser mais intensos na habitação popular, segmento em que a mão de obra responde por quase 60% do custo total das obras, o que pode pressionar preços e dificultar o acesso à casa própria, sobretudo para famílias de menor renda. Poder360
A preocupação ganha contornos ainda mais graves considerando o momento do setor. O Índice Nacional de Custos da Construção (INCC), da FGV, acumulou alta de 5,81% nos doze meses encerrados em janeiro de 2026, com a mão de obra subindo 8,93% — bem acima do IPCA, que registrou 4,44% no mesmo intervalo. CNN Brasil
Setor pede debate técnico
Renato Correia, presidente da CBIC, criticou o que chamou de discussão precipitada. Para ele, o tema precisa ser avaliado com base em dados confiáveis e levar em conta questões estruturais, como a baixa produtividade do trabalhador brasileiro e a já existente dificuldade de contratação em diversas regiões do país. CBIC
A posição do setor produtivo contrasta com a do governo. O ministro do Trabalho defende que a jornada de 40 horas é viável e que os impactos financeiros já foram parcialmente absorvidos ao longo dos anos, argumentando ainda que trabalhadores menos exaustos tendem a ser mais produtivos e engajados. CBIC
Efeito em cadeia pela economia
O debate vai além da construção. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a redução da jornada pode elevar entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano os custos com trabalhadores formais em toda a economia brasileira, representando acréscimo de até 7% na folha de pagamentos. Seu Dinheiro
Em um universo de 32 setores analisados pela CNI, a construção civil lidera em impacto proporcional, com projeção de alta de 13,2% nos custos. São Paulo registraria o maior impacto em valores absolutos, com estimativa de R$ 95,83 bilhões em custos adicionais para empresas do estado.


