Setor registrou quase 29 mil obras iniciadas em janeiro e mais de 18 milhões de metros quadrados em atividade; juros altos seguem como principal obstáculo
O setor da construção civil brasileiro atravessa um momento de cautela. Os primeiros meses de 2026 revelam um mercado em processo de acomodação — nem em queda livre, nem em recuperação plena — enquanto a taxa básica de juros em patamar elevado continua a frear novos investimentos e tornar o crédito inacessível para boa parte dos projetos.
Os números, porém, mostram que a atividade não parou. Segundo levantamento da plataforma StartObras, desenvolvida pela Hoff Analytics em parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT), foram registradas 28.972 obras iniciadas apenas em janeiro, distribuídas entre edificações residenciais, comerciais, galpões e reformas. No acumulado dos últimos 12 meses, somando obras residenciais e comerciais de todos os portes, o número ultrapassa 490 mil canteiros ativos no país.
Além da quantidade, chama atenção a dimensão física dos projetos: somente em janeiro, as obras iniciadas totalizaram mais de 18 milhões de metros quadrados — um indicador que amplia a leitura do potencial econômico envolvido e ajuda a estimar a demanda por materiais, mão de obra e serviços.
Expectativa de melhora gradual
Paulo Engler, presidente-executivo da ABRAMAT, reconhece o momento delicado, mas vê sinais de virada. “Já observamos sinais de estabilização do faturamento, e a expectativa é que a queda gradual da Selic ao longo do ano contribua para uma recuperação progressiva da atividade”, afirmou. A entidade havia publicado, em março, um indicador que apontava para essa possível retomada ao longo do ano.
O otimismo, no entanto, é temperado por fatores de risco: tensões geopolíticas com reflexos nos preços de commodities, pressões inflacionárias e um ambiente doméstico ainda marcado pelo crédito caro. Para projetos de maior porte, esses elementos seguem funcionando como travão.
Dados viram vantagem competitiva
Em meio a esse cenário, cresce a importância de decisões embasadas em informação qualificada. Empresas do setor passam a enxergar na análise estruturada de dados — como localização das obras, tipologia, metragem e estágio de execução — uma ferramenta para direcionar esforços comerciais com mais precisão.
Para os especialistas da Hoff Analytics, o desafio não é a falta de dados, mas a transformação desse volume de informações em inteligência prática para o dia a dia dos negócios. Saber onde estão as obras e qual o seu potencial de consumo é cada vez mais determinante para quem precisa operar com orçamentos mais apertados.
FEICON como termômetro
É nesse contexto que a Feira Internacional da Indústria da Construção (FEICON) ganha relevância especial neste ano. O evento promete concentrar justamente as discussões sobre eficiência operacional, uso estratégico de dados e novos modelos de inteligência comercial — temas que saíram das margens do setor para ocupar o centro do debate, à medida que construtoras, fornecedores e prestadores de serviço buscam formas de crescer mesmo diante de um ambiente econômico ainda desafiador.



