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Construção civil registra maior inflação para abril em 16 anos e acende alerta no setor

Com alta de 1,04% no mês, INCC-M atinge patamar inédito desde 2010 e Cbic projeta cenário ainda mais severo em maio

A construção civil brasileira começou o segundo trimestre de 2026 com um sinal preocupante. O INCC-M (Índice Nacional de Custo da Construção – Mercado), apurado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), avançou 1,04% em abril — o maior resultado para o mês em 16 anos, desde 2010. O número surpreendeu negativamente entidades do setor e reacendeu o debate sobre a sustentabilidade dos grandes programas habitacionais do governo federal.

A aceleração foi expressiva: em apenas um mês, a taxa subiu 0,68 ponto percentual, saltando do patamar registrado em março. No acumulado de 12 meses, o índice passou de 5,81% para 6,28%, atingindo o nível mais alto desde novembro do ano passado, quando havia chegado a 6,41%.

Pressão deve se intensificar em maio

Para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), o resultado de abril foi acima das projeções — e o pior ainda está por vir. Dionyzio Klavdianos, que preside a Comissão de Materiais, Tecnologia e Produtividade da entidade, avalia que a curva ascendente deve ganhar força no mês seguinte, refletindo reajustes que ainda estão em processo de repasse na cadeia produtiva.

Segundo Klavdianos, a dinâmica comercial do setor — em que produtos são adquiridos com prazo médio de 30 dias para entrega — explica em parte o descompasso entre o anúncio dos aumentos e seu efeito nos índices oficiais. “O natural é que o impacto fosse em maio essa demonstração”, afirmou o representante da Cbic, ponderando que o mercado vinha operando sem oscilações relevantes até então.

Petróleo e Oriente Médio no centro da pressão

A escalada de custos tem origem em fatores combinados. Em março, fornecedores de insumos básicos para canteiros de obra — entre eles fabricantes de tubulações de PVC e outros derivados de petróleo — começaram a comunicar reajustes a seus clientes. As tensões geopolíticas no Oriente Médio aparecem como um dos vetores apontados pelo setor para explicar o encarecimento das matérias-primas petroquímicas.

Klavdianos, contudo, levanta uma hipótese complementar: parte do reajuste pode representar um “desejo represado” da indústria fornecedora, que aproveitaria o momento de instabilidade externa para recompor margens contidas em meses anteriores. Caso o conflito no Oriente Médio se prolongue, o efeito sobre os insumos tende a se aprofundar.

Riscos para Minha Casa, Minha Vida e PAC

A elevação dos custos coloca sob tensão dois dos principais eixos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na área de infraestrutura: o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em ano eleitoral, o Executivo ampliou suas ambições no setor habitacional, elevando para 3 milhões a meta de moradias entregues até o fim do mandato e destinando aporte adicional de R$ 20 bilhões do Fundo Social ao programa.

O problema, segundo a Cbic, é estrutural: contratos firmados no âmbito do Minha Casa, Minha Vida não preveem mecanismos amplos de reajuste. Isso significa que, à medida que o custo dos insumos avança, as construtoras absorvem a diferença — situação que, se prolongada, pode comprometer a viabilidade econômica das obras e o ritmo das entregas prometidas.

Klavdianos pondera que ainda existe alguma margem de negociação para as empresas, mas adverte que essa folga pode se esgotar caso o cenário internacional não se estabilize. A combinação entre metas ambiciosas, contratos rígidos e custos em escalada forma um nó que o governo precisará desatar nos próximos meses — e que pode ter desdobramentos diretos na entrega política do programa habitacional em 2026.