Construção civil avança no uso de materiais mais resistentes, soluções sustentáveis e tecnologias de previsão, mas investimentos insuficientes ainda dificultam a preparação dos municípios brasileiros.
O aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos tem exigido mudanças na forma como as cidades brasileiras são planejadas e construídas. Diante desse cenário, empresas e profissionais da construção civil vêm ampliando o uso de materiais de maior resistência, técnicas sustentáveis e ferramentas tecnológicas capazes de reduzir os impactos de enchentes, ondas de calor e outros fenômenos.
Apesar dos avanços, a falta de recursos destinados à adaptação urbana continua sendo um dos principais obstáculos enfrentados pelo país. A avaliação é de Nilson Sarti, representante da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que defende uma abordagem mais ampla para tornar as cidades mais resilientes.
Segundo Sarti, o debate não deve se limitar à proteção individual das edificações. É necessário considerar toda a infraestrutura urbana, incluindo sistemas de drenagem, pavimentação, pontes, encostas, rios, áreas verdes, redes de energia e equipamentos públicos.
Entre as referências internacionais citadas pelo representante da CBIC está o programa Making Cities Resilient 2030, conhecido como MCR2030, iniciativa das Nações Unidas que reúne diretrizes para auxiliar os municípios na prevenção de riscos e no fortalecimento da capacidade de resposta a desastres.
Novos materiais e soluções baseadas na natureza
A engenharia exerce papel estratégico na preparação das cidades para as mudanças climáticas. Entre as soluções que vêm sendo estudadas ou implementadas estão os asfaltos modificados, os concretos de alto desempenho e os pavimentos refletivos, que podem contribuir para aumentar a durabilidade das estruturas e reduzir a absorção de calor.
Também ganham relevância as chamadas soluções baseadas na natureza. Elas incluem a criação e ampliação de áreas verdes, a recuperação de cursos d’água, a reabertura de rios canalizados e a preservação de lagos e áreas de drenagem natural.
Essas medidas podem melhorar a absorção da água da chuva, reduzir alagamentos e diminuir as temperaturas em regiões densamente urbanizadas.
Além dos materiais e das técnicas construtivas, novas tecnologias estão sendo utilizadas para simular cenários climáticos futuros. A inteligência artificial, por exemplo, pode ajudar engenheiros e gestores públicos a analisar grandes volumes de dados e prever o comportamento de chuvas, rios e sistemas de drenagem.
Os modelos tradicionais, geralmente elaborados a partir de registros históricos, já não seriam suficientes para representar a nova realidade climática. Em muitas cidades, estruturas de contenção e reservatórios foram dimensionados para volumes de chuva inferiores aos registrados nos últimos anos.
Tragédias expõem vulnerabilidade da infraestrutura
As enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul foram citadas como exemplo da necessidade de revisar os parâmetros utilizados no planejamento urbano e na execução de obras.
Além das perdas humanas e dos danos às residências, as inundações provocaram a paralisação de empresas instaladas em áreas atingidas, comprometeram equipamentos de tecnologia e afetaram estruturas essenciais para o funcionamento das cidades.
Pontes e outras obras de infraestrutura também sofreram danos ou desabaram diante de níveis de água superiores aos considerados nos projetos originais. Para o setor da construção, episódios como esse mostram que as decisões de engenharia precisam incorporar projeções climáticas mais rigorosas.
A preparação das cidades deverá incluir não apenas a execução de novas obras, mas também a revisão e o reforço de estruturas existentes.
Licitações ainda ignoram novos parâmetros climáticos
No campo regulatório, a Lei nº 14.904, sancionada em julho de 2024, estabeleceu diretrizes para a elaboração de planos de adaptação às mudanças climáticas. A legislação é considerada um avanço, mas sua aplicação ainda enfrenta dificuldades.
De acordo com Sarti, diversos processos de contratação e concorrência pública continuam utilizando critérios tradicionais, sem incorporar integralmente os novos cenários de risco climático.
A ausência desses parâmetros pode resultar na contratação de projetos que não estejam preparados para chuvas mais intensas, temperaturas elevadas e alterações no comportamento de rios e encostas.
O setor também espera avanços relacionados ao licenciamento ambiental, de maneira que haja maior segurança jurídica para a aplicação de tecnologias sustentáveis e soluções voltadas à resiliência urbana.
Municípios enfrentam restrições orçamentárias
Embora existam tecnologias disponíveis e exemplos de iniciativas bem-sucedidas, a capacidade financeira dos municípios ainda representa uma barreira significativa.
Grande parte das prefeituras enfrenta dificuldades para financiar obras de drenagem, contenção de encostas, recuperação ambiental, reforço de pontes e modernização de sistemas de alerta e defesa civil.
Algumas cidades têm desenvolvido projetos específicos. Salvador, por exemplo, foi mencionada pelas ações voltadas ao reforço de encostas e à estruturação da defesa civil. Contudo, a avaliação é de que os investimentos não podem ocorrer apenas após tragédias ou situações emergenciais.
A adaptação climática exige planejamento permanente, manutenção das estruturas e recursos previstos nos orçamentos públicos.
Poder público deve liderar transformação
Para a CBIC, os governos também precisam assumir papel de liderança ao incorporar soluções sustentáveis em prédios e obras públicas.
Edificações pertencentes ao poder público poderiam servir como referência por meio do uso de energias renováveis, materiais mais resistentes e projetos que priorizem o conforto térmico e acústico.
Além de reduzir gastos operacionais no longo prazo, essas medidas poderiam estimular a adoção de novos padrões construtivos pelo setor privado.
O desafio, no entanto, permanece amplo. Sem recursos contínuos, atualização dos processos de contratação e integração entre planejamento urbano, engenharia e gestão ambiental, as cidades brasileiras continuarão vulneráveis a eventos climáticos cada vez mais severos.



