Reforma da jornada de trabalho pode encarecer imóveis e pressionar o varejo, apontam estudos
Levantamentos de entidades do setor privado mensuram os possíveis efeitos econômicos da mudança na escala de trabalho A discussão sobre alterações na jornada de trabalho ganhou novos contornos com a divulgação de estudos que avaliam os possíveis impactos sobre dois setores da economia: o varejo de centros comerciais e a construção civil. Os números revelam efeitos que vão além do mercado de trabalho e chegam ao bolso do consumidor — especialmente das famílias de menor renda. Varejo sente pressão nos números Levantamento da Tendências Consultoria, desenvolvido em parceria com a Abrasce, entidade representativa do setor de shopping centers, projeta que a adoção do modelo 4×3 — quatro dias de trabalho e três de descanso — poderia representar uma contração de 16% no faturamento do segmento. Em valores absolutos, a receita recuaria de R$ 200,9 bilhões, registrados em 2025, para R$ 168,7 bilhões — uma diferença de R$ 32 bilhões. Já no modelo 5×2, o impacto seria menor, mas ainda relevante: queda estimada de 7% no faturamento, com a receita recuando para R$ 186,2 bilhões. Construção civil e o acesso à moradia No setor de construção, a Abrainc — Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias — alerta para um efeito em cadeia que pode comprometer o acesso de milhões de famílias ao financiamento habitacional. A explicação está na estrutura de custos das obras: a mão de obra responde por cerca de 40% do valor total de um empreendimento. Com a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, o custo total das incorporações em relação ao Valor Geral de Vendas (VGV) subiria 5,5%. No cenário de 36 horas semanais, essa alta chegaria a 11%, considerando os efeitos diretos e indiretos sobre mão de obra, materiais e serviços. As simulações com base em imóveis de R$ 200 mil — faixa voltada à habitação popular — indicam que o valor final pago pelo consumidor subiria para R$ 211 mil no cenário de 40 horas e para R$ 222 mil no de 36 horas. A elevação na renda exigida para financiamento excluiria, respectivamente, 1,6 milhão e 3,3 milhões de famílias que hoje teriam condições de acessar o crédito. O efeito também alcança imóveis de médio e alto padrão. Para unidades avaliadas em R$ 500 mil, o valor financiado poderia chegar a R$ 555 mil no cenário mais restritivo, inviabilizando o acesso para até 860 mil famílias adicionais. Debate em aberto Os dados alimentam um debate que mobiliza sindicatos, entidades patronais e economistas. De um lado, a defesa de que trabalhadores têm direito a mais tempo livre e melhor qualidade de vida. Do outro, o argumento de que os custos dessa transição podem se refletir em preços mais altos e acesso reduzido a bens essenciais — como a moradia — especialmente para as camadas mais vulneráveis da população. As discussões no Congresso Nacional seguem em curso, e os levantamentos apresentados pelos setores produtivos tendem a intensificar as negociações nos próximos meses.








